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Tributo à sanfona e aos sanfoneiros
Quem me conhece bem, sabe que adoro o toque de uma sanfona. Devo ter sido gerada após os bailes da roça. Meus pais eram exímios dançadores de “valsa e rastapé”, e eu desde pequena dancei entre os braços dos dois, nos salões improvisados, nas tuias ou terreiros de café.
Assim que, ao toque de uma sanfona, meu coração se alegra e vem a doce memória da infância, das festas de aniversário do meu pai e dos vizinhos, de casamentos ou o fim da colheita, comemoradas no sábado à noite ou na matinê de domingo à tarde. Dança de amigos: de crianças, mulher com mulher, velhos e jovens.
Esta saudade bateu em mim, nesta manhã de sábado, quando me deparei com os sanfoneiros, que saíram às ruas para tocar no calçadão da 13 de maio em Campinas. Mas ao mesmo tempo, a alegria interna do meu coração contrastava com a expressão do meu olhar. Caminhantes apressados às compras nem percebiam o som da sanfona misturada aos alto-falantes que anunciavam as ofertas imperdíveis. Parei para ouvir, ainda que meio envergonhada, por ficar ali sozinha no meio da rua, em meio à correria do povo.
Pouco distantes um do outro, três sanfoneiros, tentavam ganhar com a música algumas moedas. Um paralítico e dois cegos. Ninguém depositava nada, pois movidos pelos apelos do alto-falante e das ofertas tentadoras não tinham tempo para ouvir o som da música, e tão pouco olhar para o chão da calçada onde estavam sentados.
Toda vez que vejo esta cena (porque sempre eles estão ali), me dá um desejo enorme de fazer um grande baile, como nos meus tempos de criança. Já imaginaram se todo o povo parasse e dançasse no calçadão da 13, em pleno sábado de manhã? E as vozes dos alto-falantes, em vez de incentivar as compras desnecessárias, as facilidades de crédito, que geram dívidas intermináveis, convidassem o povo para se unir e dançar, com quem passar ou estiver por perto, sem preconceito, - adultos e crianças, jovens e velhos, negros, pobres, - e dançássemos todos juntos a música dos sanfoneiros?
Quem sabe um dia o grande baile acontecerá?
Alguém com a coragem de um profeta ou profetisa,
tomará os alto-falantes nas mãos e convidará o povo para dançar na rua...
E naquele dia haverá alegria!
Ainda seja que só por um dia!
Neusa Tetzner é Pastora Luterana da IECLB na Cidade de Valinhos (São Paulo) e trabalha na Coordenação de cursos no CESEP. Email: cebep2003@yahoo.com.br
04/07/2009
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