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Um Homem de Deus
Ele não se destaca pelas homilias, nem pelas roupas que veste. É um senhor de 84 anos, que em cada manhã de domingo chega ao templo Episcopal da Praça Olavo Bilac, andando devagarzinho, ajudado pela esposa Ruth, pela filha Priscila e pela neta Débora.
Este cavalheiro é o reverendo Saulo um homem de Deus.
Seus primeiros passos no ministério sacerdotal remontam ao início do século XX. Por onde passou, deixou uma tríplice marca: a marca da simplicidade, a marca da acolhida e a marca da solidariedade.
Uma vez, durante a ditadura militar, Saulo foi procurado por uma família evangélica, que, angustiada pedia a sua ajuda para libertar um parente que havia sido preso de forma arbitrária. Com coragem de profeta, o reverendo dirigiu-se aos delegados do DEOPS e defendeu a pessoa presa.
Talvez por acaso ou pela intercessão de Saulo o rapaz foi solto. Numa outra ocasião, atendendo a súplice voz de uma mãe, passou toda uma noite à procura de um jovem que não havia voltado para a casa.

Foram muitas as ocasiões em que Saulo ajudou a construir comunidades e a interpretar o Evangelho de Jesus Cristo à luz da realidade de seu tempo. Quantas pessoas o procuraram na Paróquia de São Lucas, na Vila Maria ou na Paróquia da Santíssima Trindade. Quantos conselhos deu a pessoas angustiadas que o procuravam.
Tudo isto foi feito por ele como ministro de Jesus Cristo Libertador, sem fazer concessões, nem à vaidade típica de todos os seres humanos, nem àqueles que, desconhecendo a tradição, queriam mudar a cada momento o Livro de Oração Comum.
Talvez o trabalho do reverendo Saulo não tivesse tantos resultados positivos, se não estivesse ao seu lado, dona Ruth. É a mulher forte da Bíblia, uma companheira de todas as horas. Somente no Coral da Paróquia da Trindade ela passou 60 anos, não são 60 dias.
Ela e Saulo uniram o testemunho e a música que hoje é cantada pela Priscila no cora da igreja.
Outro elemento fundamental da vida de Saulo foi o seu compromisso com a língua materna. Como jornalista, trabalhou longos anos na grande imprensa, assegurando outros meios para sua subsistência e reconciliando as palavras divididas pelo mau uso. Foi um mestre dos revisores.
No Domingo de Ramos a comunidade homenageou o reverendo Saulo. Ele foi convidado a reassumir o seu lugar de presbítero com as suas vestes sacerdotais e depois foi homenageado no salão da igreja pelos paroquianos, familiares e amigos.

Mas o principal gesto de Saulo durante o culto, não ocorreu durante as leituras, nem nos demais estágios rituais. Como sempre acontece, a cada domingo, ele como que mergulha no mistério da salvação. Seu recolhimento é profundo e discreto. Coloca-se diante do Pai numa postura de humildade de confiança e de esperança.
A igreja jamais agradecerá suficientemente os serviços prestados pelo reverendo Saulo. Por isso, a comunidade pede a Deus que ele viva muitos anos, porque o seu exemplo de fidelidade é exemplar para todos. Depois, quando chegar o momento definitivo, Saulo poderá partir.
Em sua primeira proposta ao Criador será certamente, a de criar o Domingo do Quilo, como fez na Paróquia de São Lucas na Vila Maria e no pomar celestial, os anjos e santos recolherão os melhores frutos para o ofertório liderado pelo jovem e idoso pastor, Saulo.
Um verdadeiro homem de Deus.
* Dermi Azevedo é jornalista, cientísta político, articulador da Desmond Tutu e membro da Paróquia da Santíssima Trindade. Email: dermi508@gmail.com
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